Resenhas

Betânia Gonçalves Figueiredo
A Arte de Curar.  Cirurgiões, médicos, boticários e curandeiros no século em Minas Gerais.
Rio de Janeiro:  Vício de Leitura, 2002.  251 p.

 

As artes e os ofícios da cura nas Gerais do século XIX
Arts and crafts of healing in 19th century Minas Gerais

Margarida de Souza Neves
Professora do Departamento de História da PUC-Rio
Rua Marquês de São Vicente 225
22453-900 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil

msneves@vrac.puc-rio.br

 Resenha publicada na revista
História, Ciências, Saúde – Manguinhos

Rio de Janeiro: FIOCRUZ, v. 11, n. 2, 2004. p. 441- 444

             A história da saúde e da doença no Brasil desenvolveu-se nas últimas décadas como uma das realidades mais promissoras no âmbito específico da História das Ciências e na perspectiva mais ampla constituída pela historiografia brasileira, que representa hoje um campo de pesquisas históricas de perfil interdisciplinar conformado por Programas de Pós Graduação consolidados e produtivos; por grupos de pesquisa de grande competência; por pesquisadores reconhecidos nacional e internacionalmente e por jovens pesquisadores interessados nesse microcosmo da história e da cultura.  Livros e periódicos especializados reafirmam a riqueza da produção desses grupos e pesquisadores individuais, enquanto um número representativo de teses e dissertações na área das ciências sociais em geral e da história em particular apontam para a vitalidade dessa área de especialização.

            O livro da professora do Departamento de História da UFMG Betânia Gonçalves Figueiredo intitulado A arte de curar.  Cirurgiões, médicos, boticários e curandeiros no século XIX em Minas Gerais inscreve-se nessa linhagem de estudos inovadores que vincula a história da saúde e da doença ao complexo universo da história da cultura e da sociedade, distinguindo-se assim de uma produção sem dúvida valiosa, mas definida por uma perspectiva intra-disciplinar, e que, até a década de 1970, parecia dar prioridade ao que era visto como a evolução de cada campo científico específico, às conquistas  de instituições e de cientistas brasileiros,  ou a temas científicos bem precisos e nos quais a perspectiva histórica residia, sobretudo, na temporalidade cronológica pretérita que delimitava as questões tratadas. 

            A arte de curar inova ao explorar o universo plural e aparentemente contraditório dos agentes sociais envolvidos naquilo que a autora denomina de “ofícios a serviço da cura” (p. 139) na Província das Minas Gerais do século XIX, distante e distinta dos centros de formação acadêmica dos médicos que se diplomavam nas Escolas Médicas do Rio de Janeiro e da Bahia.   

             Não são poucas as surpresas que aguardam os leitores.  A primeira delas está reservada àqueles mais atentos à natureza do texto, originalmente uma tese de doutorado em Sociologia defendida na USP em 1998 e orientada pela professora Maria Célia Paoli, que é também a responsável pelo Prefácio do livro.  Para esses leitores, a primeira e grata surpresa é a extensão e a densidade da pesquisa empírica, que privilegiou a produção memorialística, analisou um número impressionante de jornais mineiros e soube, simultaneamente, garimpar preciosidades ao analisar com competência as águas nem sempre cristalinas da massa documental pesquisada e burilar com sensibilidade o resultado do trabalho paciente de pesquisa, traduzindo-o em um texto orgânico e bem escrito.   O aproveitamento feito do livro de memórias de Alice Dayrell Caldeira Brant, que assina como Helena Morley o livro Minha vida de menina.  Cadernos de uma menina provinciana nos fins do século XIXI, é um bom exemplo da sensibilidade e da competência da autora, e esse exemplo pontual poderia multiplicar-se se aplicado à leitura cuidadosa dos anúncios de farmácias e serviços médicos nos jornais, à atenção aos detalhes dos relatos de viajantes e das memórias de médicos, e, de uma maneira geral, a todo o trabalho com a documentação primária.

Nesses tempos em que os Programas de Pós Graduação sofrem um processo de taylorização e passaram a assemelhar-se a linhas de montagem de teses e dissertações, a pressão do calendário das agências de fomento não poucas vezes atropela o tempo necessário para a maturação intelectual de uma tese de doutoramento, e, o que é igualmente grave, vem dificultando o prazer da conquista e do exercício da autonomia científica por parte dos doutorandos, que passa a ser substituído pela angústia do cumprimento dos prazos de titulação definidos por uma burocracia nem sempre capaz de lidar com as diferenças de áreas, de escopo de pesquisa ou mesmo de situações de Programas e de pesquisadores.   

 Não é pouco surpreendente, nesse contexto, um livro originado de uma tese de doutorado e que traduza em um texto certamente escrito com prazer – e, portanto, passível de ser lido nessa mesma clave – a partir de uma pesquisa empírica muito ampla e significativa.  Somente os leitores muito atentos saberão encontrar indícios da aceleração a que são submetidos os doutorandos em pequenos detalhes, tais como algumas repetições desnecessárias (p. 81, 155, 162, 176 ou 208, por exemplo) ou a referência truncada no item II da bibliografia, destinado aos Dicionários, ao Dicionário da Língua Portuguesa, de Antonio de Morais e Silva, cuja segunda edição foi publicada em Lisboa em 1813, essencial para os estudiosos do século XIX.  O dever de ofício dos resenhistas supõe que se assinale essa pequena falha, de fácil solução em uma futura reedição, e é quase certo que nesse segundo item da Bibliografia estariam originalmente incluídas outras obras de referência consultadas pela autora, que no entanto não aparecem no livro.

 Uma segunda surpresa é o painel extremamente rico composto pelas práticas de cura nas Gerais do século XIX que o livro deixa perceber; a infinidade de “procedimentos, técnicas e cuidados que buscavam o restabelecimento do corpo doente” (p.23) que aponta; o mosaico de doenças, remédios, espaços de cura, práticas curativas e tabus relativos à saúde que desenha e o desfile de personagens variados cuja atuação ligava-se diretamente aos ofícios de curar e que o texto de Betânia Gonçalves Figueiredo permite identificar.

Ao longo de todo o livro, e especialmente nos capítulo 3 e 4, Betânia põe em cena uma multidão de barbeiros, parteiras, curandeiros, cirurgiões, dentistas, práticos, médicos, boticários, farmacêuticos, rezadoras, sem esquecer de assinalar, a cada passo, as hierarquias existentes entre essas categorias sócio- profissionais da cura e mesmo no interior de cada uma delas.  Ao mesmo tempo, o livro aprofunda a relação desses homens e mulheres cujo ofício é o alívio dos males do corpo com a sociedade como um todo e com suas práticas de sociabilidade e de exercício do poder, e introduz o leitor no universo de medos, dores, perplexidades, crenças e desconfianças que pavimentam o que o capítulo 1 do trabalho denomina de “os percursos da cura no século XIX em Minas Gerais” (p. 39).

Em cada fragmento desse surpreendente mosaico, a tese central vai se desenhando, para aparecer com clareza no desenho final que o leitor perceberá ao chegar ao final do livro.  Não se trata apenas de assinalar que “o discurso médico no século XIX não é homogêneo, assim como sua prática também não” (p. 24).    Trata-se de rever as práticas e procedimentos de cura no século XIX em Minas para identificar, por um lado, o conflito entre a medicina moderna e científica e as formas tradicionais, eminentemente práticas e muitas vezes mágicas do exercício popular da cura, mas também, por outro lado, para surpreender as relações, superposições e interpenetrações entre a medicina acadêmica e as práticas de cura  construídas e transmitidas pelo saber do povo.   

            A argumentação utilizada ao longo dos quatro capítulos é consistente, e justamente por isso a história de Hermes Augusto de Paula, o médico de Montes Claros cujo livro de memórias ajudou a autora a confrontar e relacionar “a medicina dos médicos e a outra medicina”, anunciada logo no início do livro (p. 31) e narrada no final do quarto capítulo (p. 224) é eloqüente e escapa ao episódico, ganhando foros de fábula emblemática da tese defendida por Betânia.  O médico, depois do fracasso de dois colegas seus, enfrentava procedimentos complicados para extrair uma bala que se alojara em local de difícil acesso no rosto de um fazendeiro local, manejando, com uma das mãos, os instrumentos cirúrgicos e as radiografias conforme os ensinamentos científicos que aprendera na Academia, enquanto, com a outra mão, apelava para os serviços da alma do negro Joaquim Nagô, prometendo-lhe uma Ave-Maria se este o ajudasse.  O fato é que a pinça da ciência extraiu com sucesso o projétil do rosto do fazendeiro em minutos, o que não impediu o médico de reconhecer a ajuda da alma do outro mundo que convocara para assisti-lo, e a quem recompensou rezando contrito não uma, mas três Ave-Marias.

            Os episódios que confirmam a interpenetração entre o universo da ciência médica e o da outra medicina se multiplicam, e permitem ao leitor a percepção progressiva do alcance do trabalho, que se desdobra e cresce a partir de uma hipótese, esboçada já na introdução do livro, na qual a autora afirma considerar que “o século XIX no Brasil [pode] ser estudado como um século fundante, pedra inaugural com um vetor em direção a um modelo de civilização” (p. 30).  Essa intuição inicial é aprofundada através do diálogo teórico discreto, mas efetivo, com seus principais interlocutores, representados por autores como Norbert Elias, cuja leitura fornece a chave para a compreensão da complexidade dos processos civilizatórios; Michel De Certeau, de quem toma de empréstimo a noção de “pluralidade incoerente (e por vezes contraditória) de determinações relacionais”  (p. 27) e Nestor Garcia Canclini – que não aparece, no entanto, citado na bibliografia do trabalho - , com quem aprendeu a importância de “explorar esse universo do mundo cultural composto por variações e hibridações” ( p 237).   

            A interlocução teórica confrontada com o universo oferecido pela pesquisa empírica conduz a uma terceira e definitiva surpresa: como todo historiador, Betânia Gonçalves Figueiredo se debruça sobre o passado para refletir sobre as questões do presente, e seu trabalho minucioso sobre as profissões da cura no século XIX mineiro tem como horizonte de sentido a indagação sobre o processo complexo, híbrido, contraditório e ambíguo e sempre incompleto que caracteriza a construção do moderno na sociedade brasileira.  O peso de sua argumentação certamente ajuda a pensar o moderno como questão no campo científico brasileiro, ainda que os exemplos contemporâneos aduzidos na conclusão e representados pela experiência da Casa do Chá na cidade mineira de Ouro Branco e da Farmácia Verde mantida pela prefeitura de Ipatinga impliquem em um salto lógico que não chega a acrescentar nada à tese defendida e pareça afastar-se um pouco do rigor do raciocínio histórico que permeia todo o trabalho, mas isso é apenas um detalhe e em nada prejudica o valor do trabalho.

            O problema maior, como tantas vezes ocorre com as publicações veiculadas por pequenas editoras, é encontrar o livro...  A editora Vício de Leitura, responsável por sua publicação, deve encontrar dificuldades para furar o cerco das grandes editoras e de sua relação com as livrarias e  garantir assim a divulgação do trabalho de Betânia.  Desse problema, no entanto, nem a autora nem a editora podem ser responsabilizadas.

            O que é certo é que a busca pelo livro e sua leitura valem a pena.  A arte de curar de Betânia Gonçalves de Figueiredo garantirá a seus leitores, além de horas de leitura instigante e prazerosa, a grata experiência do contato direto com um ótimo exemplo da produção de qualidade originada nos Programas de Pós-Graduação brasileiros, a descoberta do complexo mundo das artes e ofícios da cura nas Gerais do século XIX e, por acréscimo, uma ocasião para a reflexão sobre o intrincado processo de construção do moderno no Brasil.

Referências bibliográficas:

Canclini, Nestor Garcia.  Culturas híbridas  Estratégias para entrar e sair da modernidade.  São Paulo: EDUSP. 1997.

 De Certeau, Michel.  A Invenção do Cotidiano. Petrópolis: Vozes. 1994.

Elias, Norbert.  O processo civilizador.  Uma História de costumes.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1990.

Morais e Silva, Antonio de. Dicionário da Lingua Portuguesa, recopilado dos vocabulários impressos até agora, segunda edição novamente emendada e muito acrescentada. (2ª ed.)  Lisboa:  s.e. 1813.

Morley, Helena.  Minha vida de menina. Cadernos de uma menina provinciana nos fins do século XIXI.  (17ª ed.) Rio de Janeiro:  José Olympio. 1994.
 

©Portinari

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