A Epilepsia em Cordel

Os folhetos de cordel são vendidos nas feiras populares e recebem esse nome porque, muitas vezes, são expostos para a venda pendurados em barbantes.

Os cordelistas, poetas populares, são por vezes também cantadores e  fazem seus versos sobre temas os mais variados, do folclore à política, dos acontecimentos da atualidade a temas fantásticos, do futebol ao cangaço, de histórias de amor a narrativas religiosas.

Os folhetos, na maioria das vezes trazem em suas capas xilogravuras alusivas ao tema tratado no livreto.

O cordel aqui reproduzido, de autoria do alagoano Zezito Guedes, trata das práticas de cura populares e recolhe formas do povo lidar com várias doenças, entre elas a epilepsia que o poeta considera um “tormento”.

 

Meizinhas do Povo

Zezito Guedes
Hoje, eu resolvi falar
Nas ervas do meu sertão
Que servem p’ra fazer chá
Ou p’ra fazer infusão
 
P’ra falar na letra a
Tem a folha de arruda
Quem no ouvido botar
Essa dor logo se muda
 
Baba- timão é indicado
P’ra quem tem inquietação
Ele é muito procurado
P’ra quem tem inflamação
 
Também tem erva babosa
Que seu cheiro não agrada
É também muito amargosa
Mesmo assim é procurada


Tem o mijo de ovelha
Para banho de mulher
O cheiro não se assemelha
A uma erva qualquer


Tome chá de quina-quina
Que tem muita indicação
E o povo sempre ensina
Para febre ou infecção
 
A raiz de fedegoso
Para impingem ou parasita
Se não é muito gostoso
Mas toma quem necessita
 
Tem capim federação
 P’ra uretra é bem usado
 Para essa inflamação
 Ele é muito procurado
 
A raiz de ouricurí
Serve também para rins
Se você não acha aqui
Mande buscar nos confins
 
Pra mulher de veia fraca
Que o doutor chama varizes
Tome a língua de vaca
Mas não as folhas, as raízes


Diabete lhe atormenta
Pois o remédio é um só.
E você come até pimenta
Tome o chá de mororó.

 
Pra quem tem colesterol
E só come mais verdura
Cebola roxa é o melhor
Para queimar a gordura
 
E a flor de mussambê
Que muita gente conhece
É muito bom de beber
A tosse desaparece
 
Vassourinha de botão
É erva de todo quintal
E aqui no meu sertão
Se toma p’ra qualquer mal
 
Quixabeira é planta nossa
Serve pra muita meisinha
A raiz ou a casca grossa
E tem também a frutinha
 
O angico é bem conhecido
Remédio aqui do sertão
Quem tem o braço partido
Faz da casca encenação

P’ra sair bem o sarampo
Faça chá de flor de tôco
Mas não é erva do campo
Isso é remédio de louco

Cortar leite após o Parto
P’ra mulher é um colôsso
Um rosário de carrapato
Pendurado no pescoço
 
Hemorragia em mulher
Não faça chá de malissa
Nem de outra erva qualquer
Chá de couro de preguiça
 
A caatingueira rasteira
É o remédio de homem fraco
Basta tomar uma asneira
Que não enjeita buraco
 
Folha de samba coité
Para quem tem ferimento
Ou então machucou  a pé
Logo acaba o sofrimento
 
Mas acredite que exista
Uma erva muito cara
É indicada p’ra vista
Jaborandí esta é rara

Se o dito corta um pé
E não tem o que botar
Encha de pó de café
Para sangria parar
 
Lambedor de Jatobá
P’ra quem tem constipação
Pode até experimentar
Que vê logo a reação
 
Se faz também de júa
Um outro bom lambedor
Só é mais ruim de tomar
Porque tem um amargor

A raiz de urtiga branca
Para quem tem alergias
Doença na pele estanca
Serve também para as vias
 
Para gripe ou resfriado
Faça o chá de alecrim
Mas não vá ficar zangado
Se o remédio for ruim
Quem sofrer de coração
Tome o chá de capim santo
Que é uma erva de ação
E se chama em todo canto
 
Cachumba chama o doutor
A doença de papeira
Lama de pote botou
Acabou-se a brincadeira
 
Tem também a pucumã
Que se usa em ferimento
Não deixe para amanhã
Hoje acaba o sofrimento
 
A fruta de gravatá
Para verme de criança
Tanto é fácil de tomar
Como é de confiança
 
P’ra cortar hemorragia
Tem na bananeira leite
Corte e apare na bacia
Para o doente receite

Para curar a macacoa
Faça o chá de jericó
Essa erva é muito boa
Você toma uma vez só
 
Também tem a garrafada
De vinte e cinco sementes
Deve ser bem preparada
Por duas mãos competentes
 
Use a cabeça de nêgo
 Mas cuidado com a manobra
O Tejo faz seu emprego
Quando lhe morde uma cobra
 
Se você sofre do rim
E a sua urina embola
Causa até, um farnezim
Tome um chá de carambola
 
Tem o olho de arueira
 Que o sangue purifica
 Não tem o gosto nem cheiro
 E a saúde modifica
Ainda tem manacá
Que é uma planta da serra
Ela serve p’ra curar
Muitas doenças na terra
 
A folha de carrapateira
Veja bem e não esqueça
Ainda é boa maneira
De curar dor de cabeça
   
É milindre ou alfinete
Isso aí não é questão
Sua folha é um filete
Muito usado p’ra tensão
 
Não existe melhor cura
P’ra doenças de garganta
É bunda de tanajura
E injeção não adianta
 
Tome leite com mastrús
Para catarro no peito
Não precisa usar capús
P’ra você sair do leito


Lambedor de jurubeba
Pra fraqueza de pulmão
O seu corpo não tem quebra
E limpa a respiração
 
Linda flor é a gitirana
Nasce na beira da estrada
Fazer compressa é bacana
Quem levou uma pancada
 
A parreira é procurada
P’ra quem sofre empachação
Mas também ela é usada
Pra fazer purgação
 
Pra coração tem colônia
Que é a folha preferida
P’ra quem sofre de insônia
Ou tem paixão recolhida
 
Quem não puder respirar
Aí tem chá de trombeta
E quem tem falta de ar
Pode até tocar cometa

Para o vento que passou
E ofendeu a criancinha
Nem leve para o doutor
Queime logo a camisinha
 
Manjericão é cheiroso
E serve p’ra rezadeira
A velha lhe acha ditoso
O melhor pra curandeira
 
Não falei da papaconha
Que é uma raiz vulgar
Se usa até p’ra quem sonha
Pois é muito popular
 
E ainda tem pega pinto
Que serve p’ra fazer chá
Se sentir o que eu sinto
Pode fazer e tomar
 
A erva de passarinho
Que chamam de parasita
Das folhas faça um chazinho
Que o sangue não se agita


 


 


Quem sofre epilepsia
P’ra minha família é tormento
Mas p’ra quem não conhecia
Chá de osso de jumento
 
Para quem sofre de ameba
E não sabe quem lhe acuda
Não lhe serve jurubeba
Hortelã folha miúda
 
Essas trovas eu já fiz
Falando em toda meizinha
Erva, semente, raiz
Era somente o que tinha.


Texto obtido em www.candeeiroaceso.org.br/cordelmesinhasdopovo.htm
 

As imagens foram obtidas em www.fundarj.gov.br/docs/pe/pe0017.html  e  www.ablc.com.br

 

©Portinari

Uma História Social da Epilepsia
no Pensamento Médico Brasileiro

História - PUC-Rio